A Tela - CAVALEIRO NEGRO

 

A Tela

 Por entre spots

E conversas acesas,

Descobri,

lá num canto mal iluminado,

uma tela a óleo e pastel,

sem ninguém à volta,

aproximei-me, era um retracto

de uma linda donzela,

talvez do século XV,

europeia, tez branca,

de longos cabelos frisados

da cor do ouro,

pose serena, quase rígida,

sentada, com as mãos brancas e finas,

cruzadas sobre o colo,

o sorriso mecânico, a disfarçar a tristeza

que lhe despedaçava o coração,

e o seu olhar, meigo e doce, quase submisso,

falou-me de um amor antigo,

perdido à muito, por entre beijos escondidos

e juras de amor eterno, interrompidas

por suspiros e palavras sussurradas,

mas a morte chegou com a guerra,

e o seu amor, lá foi combater

em nome de uma qualquer fé,

para tombar ferido e sem glória

por entre rios de sangue

e preces de moribundos,

disse, quem o acompanhou até ao fim,

que olhou então para o céu e sorriu,

não era um anjo quem via,

mas sim a sua amada,

que vinha oferecer-lhe o derradeiro beijo,

desejo que ainda o prendia à vida,

levou então a mão ensanguentada

por entre a armadura e o peito,

a custo, tirou uma rosa branca,

intacta, sem mácula, apesar da rija peleja

e dos muitos golpes sofridos,

assim era o seu amor por aquela

que vinha agora, roubar-lhe gentilmente,

o ultimo sopro de vida,

num beijo perfumado e eterno.

De repente, os seu olhos calaram-se,

Podia ouvir o silêncio,

quebrado por um leve soluçar,

não podia perceber

de onde vinha aquele pranto,

olhei para todos os lados,

as mesmas pessoas e as mesmas

conversas acesas,

quando olhei para o chão

por baixo da tela, vi uns pingos,

parecia de chuva, voltei a olhar

para a Donzela do retracto,

reparei então que era ela quem chorava,

as suas lágrimas escorriam pela tela

até virem morrer no chão de mármore frio,

onde tinha nascido uma flor,

era uma rosa, branca...

Cavaleiro Negro (Vitor Miguel Oliveira)

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