Metade Que a força do medo que tenho

bearballoon0.gif (30953 bytes)Metade

Que a força do medo que tenho

não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo que acredito

não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,

mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe

seja linda, ainda que triste.

Que a mulher que eu amo

seja sempre amada, mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida

e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas

como prece nem repetidas com fervor,

Apenas respeitadas como a única coisa

que resta a um homem inundado de sentimento.

Porque metade de mim é o que eu ouço,

mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme

na calma e na paz que eu mereço,

Que essa tensão que me corroe por dentro

seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso

e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste,

que o convívio comigo

mesmo se torne ao menos suportável

Que o espelho reflita em meu rosto

o doce sorriso que eu me lembro

de ter dado na infância.

Porque metade de mim é a lembrança do que fui,

a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria

para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio me fale cada vez mais.

Porque metade de mim é abrigo,

mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,

mesmo que ela não saiba,

e que ninguém a tente complicar

porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é a platéia

e a outra metade, a canção.

E que minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor

e a outra metade... também.

( Osvaldo Montenegro )

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