
LENÇO BRANCO
Assim são nossos PAIS! |
| A casa era modesta. Fora construída junto
à linha férrea, nos arrebaldes da cidade. No quintal, uma velha e frondosa árvore vira
cada filho crescer. Servira de abrigo para a família. À sua sombra, todos descansavam. E
quem passava de trem, mesmo que não quisesse, notaria a presença majestosa daquela
árvore.
Certo dia,
um dos filhos, o mais velho, resolveu sair de casa. Queria conhecer o mundo, se ver livre
da autoridade paterna. Comunicou sua decisão e, embora recebendo ponderações em
contrário, em especial de sua mãe, partiu para a cidade grande, onde, pensava, viveria
melhor, arranjaria emprego, casaria, alcançaria sucesso....seria feliz. Chegando ao
destino escolhido, resolveu experimentar de tudo. Afinal, desejava aproveitar a vida,
viver intensamente. Realmente, atingiu seu objetivo
Ou pensava que o fazia. Passou noites em claro, bebeu, fumou e até
experimentou drogas.
Era um
barato ! Quando percebeu já estava viciado em "pico".
O uso
indiscriminado de agulhas e seringas, sem nenhum cuidado com a higiene, logo produziu os
inevitáveis resultados. Começou a enfraquecer-se.... estava doente....
O médico, após rigorosos exames, muito cauteloso, diagnosticou :
AIDS.
A
situação do jovem piorava a cada dia. Já não tinha onde ficar.
Nem mesmo
seus amigos de vício podiam ajudá-lo. Até porque muitos deles também estavam
doentes.... Ele precisava, urgentemente de amparo.
Mas... para
onde ir ?
Não podia voltar para casa de seus pais. Desde que de lá saíra,
e já eram decorridos seis anos, nunca mais voltara. Nem mesmo escrevera para seus pais.
Nada mais sabia de sua família.
A
situação estava cada vez mais grave. Assim, não lhe restava outra alternativa. Tinha
que voltar para casa.
Uma interrogação, no entanto, vagava em seu espírito. Seria
recebido ? Apesar de tudo, resolveu voltar, mas não sem antes remeter um telegrama para
seus pais : "Estou voltando. Muito doente. Podendo receber-me, ponham um lenço
branco na árvore."
À medida
que o trem deslizava sobre os trilhos, o coração do jovem ficava mais apreensivo.
Dúvidas assaltavam a sua mente
Se não mais existisse a árvore ? Se o telegrama não tivesse
chegado ? Se seus pais não quisessem recebe-lo?
Tomou uma
decisão : caso não haja nenhum lenço na árvore, não desço na estação, passo
direto.... e me atiro do trem em movimento, logo depois, pondo fim à vida.
Agora só
faltava mais uma curva e depois dela poderia ver sua velha casa... o quintal.... a
árvore. Quase não podia respirar.
Colocou a
cabeça para o lado de fora do vagão e, então, viu a árvore.... e nela não havia
o esperado lenço branco...
Não havia
lenço, mas sim um grande lençol branco. Ninguém deixaria de enxerga-lo.Era uma linda
mensagem de amor.Um grande lençol branco... Assim são os pais. (Paulo
Ribeiro)
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